O Mercado Cangaceiro
by Leonardo Eloy
Entre Facões e Cactos
Há um tempo atrás li um livro muito interessante, chamado A estratégia do Oceano Azul. Em resumo, através de uma série de exemplos, o livro mostra como uma empresa ao invés de competir num oceano sangrento, cheio de competidores, deveria criar um mercado próprio para atuar. Assim, estaria estabelecido um oceano azul, plenamente navegável, onde você sempre foi e será o primeiro.
Me recordei deste livro quando li essa matéria na InfoWorld, na excelente coluna Fatal Exception, entitulada “Geriátrico Java luta para permanecer relevante”. Segundo McAllister, autor do artigo, a Oracle procura reanimar o mercado em torno do Java, que como o autor anotou sabiamente, é sempre lembrado como “o Cobol moderno”.
A Oracle vem procurando traçar uma estratégia para manter essa chama acesa, assim como a Sun também vinha tentando há uns três anos. Uma das estratégias óbvias foi a especificação do EJB 3.1. Mas só o fato de “especificar”, uma tarefa que começou em Julho de 2007 e terminou em Dezembro de 2009, ficou evidente que o problema não é a linguagem, mas seus processos deveras acadêmicos e burocráticos.
Sim, o JCP pode ser a solução para a integração de diversos pontos-de-vista, o que só iria enriquecer a experiência de “adotar o Java”. Porém, será que tratando-se de Web e nesse mercado bleeding-edge borbulhante, seria e melhor opção?
Pé-Direito Muito Alto
Voltando ao artigo. Jeet Kaul, VP Client Software da Oracle, comentou “Eu gostaria de ver pessoas com piercing fazendo programação em Java”, em uma clara referência aos profissionais que sempre atuam no bleeding-edge que citei acima. Chega a ser incoerente esta declaração vindo da Oracle, que usa PL/SQL em 95% do seu ERP, o Oracle EBS. Mas tudo bem, fazemos vista grossa, pois veio da área de Client Software.
Todo esse blá-blá-blá me fez pensar nos projetos recentes que estamos desenvolvendo, como o JavaCE Social. “Eu vou ensinar uma linguagem em que acredito ser atinquada?”, pensei. Não é bem assim. No mercado cearense, Java é predominante (sem estatísticas para comprovar), a demanda é altíssima e há necessidade de profissionais. Se o meu objetivo é auxiliar que estas pessoas se tornem profissionais de TI, o caminho mais óbvio se torna esse.
O Mercado Cangaceiro
No momento atual da minha carreira, minha realidade é Ruby on Rails. Há alguns anos Ruby automatiza minhas tarefas. Felizmente, como tinha o poder de decidir, escolhi RoR como a tecnologia para o projeto em que estou atuando.
Costurando os parágrafos, este artigo me fez lembrar do livro que citei no começo. Como posso criar um Oceano Azul para uma nova tecnologia, como o Ruby on Rails? Se o Java está se tornando algo antiquado – pelo menos em relação a inovações -, como eu posso fazer com que a minha realidade atual se expanda, e crie-se um nicho no mercado?
No livro, o autores sugerem primeiro a análise das fronteiras. Ora, como vou criar um oceano azul se não sei onde o vermelho termina? Uma das primeiras fases desta análise é realizar o “Exame dos Setores Alternativos”. Isso consiste em encontrar empresas – provavelmente de outros ramos – que executam serviços alternativos, não substitutos. A diferença é que um serviço alternativo provê o mesmo resultado, só que de forma diferente.
Considerando a sugestão, não deveria estar perguntando “quais os setores alternativos ao Ruby on Rails”, sim quais as alternativas no setor de desenvolvimento de software. Pode parecer um exercício meio antigo, mas a ideia aqui não é avaliar o framework que será utilizado, é a criação de um novo oceano, lembram-se?
Sintaticamente é mais fácil compreender uma linguagem como o Ruby. Sua alta ortogonalidade permite a escrita de DSLs sem esforço algum. O paradigma funcional é mais fácil de ser compreendido: mudança de estados, para quem conhece o mínimo de matemática, é algo mais natural que a programação imperativa.
A ideia neste post é lançar a semente que o Java um dia vai mudar. Acredito que hoje seja necessário, mas precisamos começar a pensar nas alternativas. E o futuro começa agora. Façamos, então, como os cangaceiros, que em vez de saquear numa só localidade, criou seu oceano empreendendo “viagens a trabalho”. Criem o seu mercado, onde a ideia não é substituir o Java, mas ser sua alternativa. E nada mais justo que utilizar Ruby e a JVM!